Descobertas e leituras
Sou a mais velha dentre cinco filhos de um casal de
professores. Nos primeiros anos de minha infância morei em casas com grandes
quintais e com várias estantes de livros. Aprendi nos quintais a subir em
mangueiras, goiabeiras, ameixeiras; a rolar na grama com meus irmãos; a observar insetos; a tratar de pássaros,
galinhas,
gansos. Nos livros: a olhar as gravuras e a viajar pela imaginação, inventando e vivendo
muitas aventuras. Também fazia
casinhas para as bonecas com as enciclopédias (antes de saber ler).
Entrei
na escola sem ter feito o jardim da infância e sofri para ter uma boa
coordenação motora e para passar nas primeiras lições da cartilha. Minhas
professoras do primário incentivaram o meu gosto pela leitura. Lia gibis,
assuntos sobre ciências nas enciclopédias, contos de fadas e no 4º ano os livrinhos
de leitura para as provas bimestrais.
Quando tinha dez anos meu pai resolveu comprar um sítio.
Mudamo-nos para lá pouco tempo
depois da compra. Foi uma grande mudança em nossas vidas. No sítio não havia
energia elétrica e a água vinha de um riacho que corria numa mata
fechada. Ficamos sem geladeira, chuveiro, televisão e telefone.
Eu e meus irmãos estudávamos na cidade no período da
manhã. À
tarde brincávamos, fazíamos tarefa e algumas leituras. Dormíamos bem cedo e, se alguém esquecia a
tarefa, tinha que fazê-la sob a
luz de vela.
As férias eram preenchidas com banho de rio, escalada de
montanha, exploração de trilha e muitas leituras. Charles Dickens, Guimarães
Rosa, Júlio Verne, Joaquim Manoel de Macedo, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Emily
Brontë, Mário de Andrade, Machado de Assis, José de Alencar, Homero, Mark Twain
e muitos outros acompanharam nossas folgas das aulas. Fizemos até um clube de
leitura e trocávamos nossas impressões sobre a leitura e sobre a biografia do
escritor.
O tempo passou, cursei a faculdade e me casei. Meu marido
também ama ler, e tem como frustração ainda não haver conseguido ler “Ulisses”
de James Joyce, no original. Procuramos passar nosso encantamento pela leitura
para nossos filhos.
Brinco que, quando estiver aposentada, vou poder ler
todos os livros que não li ainda.
Adorei sua história, me faz lembrar minha infância. Também sem energia elétrica, sem televisão , banhos de rio e muitas travessuras.Tempo em que andar de bicicleta, só se fosse do amigo. Mas os livros ...sempre davam um jeitinho de ilustrar nossos sonhos!
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